ESG no Brasil: entre o discurso e a prática das grandes corporações

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Os três pilares do ESG. Ilustração: Informação Atual

ESG — Environmental, Social and Governance — deixou de ser jargão de nicho para se tornar vocabulário obrigatório no mundo corporativo brasileiro. Grandes empresas publicam relatórios de sustentabilidade, anunciam metas de carbono zero e destacam programas sociais em seus materiais de comunicação. Mas quanto disso é substância e quanto é marketing?

A resposta, como quase sempre em análises sérias, é: depende. Há empresas que estão genuinamente transformando suas operações. E há empresas que estão fazendo o mínimo necessário para não perder acesso a capital de investidores que exigem critérios ESG, sem mudar nada de fundamental.

O que os dados mostram

Um levantamento da consultoria Deloitte publicado em 2024 mostrou que 78% das empresas listadas na B3 publicam algum tipo de relatório de sustentabilidade. Mas apenas 34% têm metas mensuráveis com prazos definidos. E apenas 12% submetem suas metas a verificação independente.

A diferença entre publicar um relatório e ter uma estratégia ESG real é enorme. Um relatório pode ser produzido por uma agência de comunicação em algumas semanas. Uma estratégia ESG real exige mudanças na cadeia de fornecimento, nos processos produtivos, na governança corporativa e na cultura organizacional.

"O problema não é que as empresas estão mentindo. O problema é que muitas estão sendo honestas sobre o pouco que fazem, mas comunicando como se fosse muito."
— Eduardo Moraes, Informação Atual

Os casos reais

Há exemplos positivos. Algumas empresas do setor de energia elétrica estão genuinamente acelerando a transição para fontes renováveis, não apenas porque é bom para a imagem, mas porque os números fazem sentido economicamente. O Brasil tem uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, e expandir essa vantagem competitiva é estratégia de negócio, não apenas responsabilidade social.

No agronegócio, o quadro é mais complexo. O setor é responsável por boa parte das emissões de carbono do Brasil (principalmente pelo desmatamento), mas também é o principal motor do superávit comercial. Conciliar crescimento do agronegócio com redução de emissões é um dos maiores desafios da política ambiental brasileira.

O papel dos investidores

A pressão por ESG vem, em grande parte, dos investidores institucionais — fundos de pensão, gestoras de recursos e investidores estrangeiros que adotaram critérios ESG em suas políticas de investimento. Essa pressão é real e está mudando o comportamento das empresas.

Mas há um risco de que a demanda por ESG crie um mercado de certificações e relatórios que satisfaz os investidores sem necessariamente mudar a realidade. É o chamado "greenwashing" — e o Brasil não está imune a ele.

Editor
Eduardo Moraes
Economista e jornalista. Cobre política econômica, mercados e sustentabilidade há 14 anos.