Reforma tributária: o que muda para empresas e para o bolso do brasileiro

Impacto da reforma tributária por setor econômico. Ilustração: Informação Atual

A aprovação da reforma tributária pelo Congresso Nacional representa a mudança mais significativa no sistema de impostos brasileiro desde a Constituição de 1988. Mas o que isso significa na prática? Para responder a essa pergunta, é preciso entender primeiro o que estava errado com o sistema anterior — e o que, de fato, muda.

O Brasil tinha um dos sistemas tributários mais complexos do mundo. Empresas precisavam lidar com cinco impostos diferentes sobre o consumo (PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS), cada um com regras, alíquotas e bases de cálculo distintas. A burocracia tributária custava às empresas brasileiras, em média, 1.500 horas por ano — o maior índice entre os países monitorados pelo Banco Mundial.

O que muda

A reforma unifica esses cinco impostos em dois: o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), de competência compartilhada entre estados e municípios, e a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), federal. Além disso, cria o Imposto Seletivo, que incide sobre produtos considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente.

A transição será gradual — dez anos para a implementação completa. Durante esse período, os dois sistemas coexistirão, o que significa que a complexidade, na prática, vai aumentar antes de diminuir.

"A reforma é um passo importante, mas não resolve todos os problemas. O sistema brasileiro ainda terá uma carga tributária elevada e uma distribuição regressiva. O que muda é a eficiência, não a equidade."
— Prof. Ricardo Paes de Barros, economista

Impacto para empresas

Para as empresas, o impacto varia muito por setor. Setores que hoje acumulam créditos tributários que nunca conseguem usar — como a indústria de transformação — tendem a se beneficiar. Setores de serviços, que hoje pagam alíquotas menores, podem ver sua carga aumentar.

Pequenas empresas do Simples Nacional ficam de fora da reforma principal, mas o regime simplificado também passará por mudanças que precisam ser monitoradas.

Impacto para o consumidor

O impacto para o consumidor final é mais difuso e depende de como as empresas repassarão (ou não) as mudanças nos preços. A teoria econômica sugere que a simplificação deveria reduzir custos e, portanto, preços. A prática histórica de reformas tributárias em outros países mostra que esse repasse é parcial e lento.

Uma novidade importante é a "cashback tributário" para famílias de baixa renda — um mecanismo de devolução de parte dos impostos pagos no consumo. O desenho exato desse mecanismo ainda está sendo regulamentado, mas pode ter impacto significativo na renda das famílias mais pobres.

O que ainda não sabemos

A alíquota padrão do novo sistema ainda não foi definida — será calculada para manter a arrecadação atual, mas o número exato depende de negociações entre governo federal, estados e municípios. Estimativas preliminares falam em uma alíquota combinada entre 25% e 28%, o que seria uma das mais altas do mundo para um IVA.

Em resumo: a reforma é um avanço real em termos de simplificação e eficiência. Mas as promessas de redução de carga tributária e de impacto positivo no crescimento econômico ainda precisam ser comprovadas na prática.

Editor
Eduardo Moraes
Economista e jornalista. Mestre em economia pela FGV. Cobre política econômica e mercados há 14 anos.